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Polícia

Júri do caso da boate Kiss começa hoje

Postada 01/12/2021



Desde a madrugada do dia 23 de janeiro de 2013, quando a boate Kiss, em Santa Maria, pegou fogo, a comunidade gaúcha sofre. O dia em questão era para ser uma noite de alegria. A festa “Agromerados” marcaria a formatura de cursos como Agronomia, Veterinária e outros, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A boate Kiss, casa noturna localizada na rua dos Andradas, no Centro da cidade, recebeu centenas de jovens para a comemoração. No palco, dois shows ao vivo. O primeiro, de uma banda de rock. Depois, foi a vez da banda Gurizada Fandangueira, de sertanejo universitário. A casa estava lotada: entre 800 e mil pessoas. A boate tinha capacidade para 690 pessoas.
Contudo, naquele dia, durante o segundo show, faíscas de um sinalizador aceso pela banda atingiram o teto revestido de espuma. Em instantes o fogo se espalhou pela pista de dança e logo tomou todo o interior da boate. De acordo com os bombeiros, a fumaça altamente tóxica e de cheiro forte provocou pânico. Aí começou a tragédia que vitimou 242 jovens e causou  ferimentos em 636 pessoas.
Desde então, a população gaúcha, em especial as famílias, sofrem pela impunidade, pela demora em encontrar os culpados e pela falta de justiça. Oito anos, 10 meses e nove dias depois, o julgamento, tão esperado, irá acontecer para punir os responsáveis e esclarecer, de uma vez por todas, a maior tragédia que o Rio Grande do Sul já viveu.
A partir das 9h de hoje, os quatro réus serão julgados no Foro Central I, em Porto Alegre, neste que deve ser o maior julgamento que o Estado e o Brasil já tiveram. Os sócios da boate Kiss, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, o músico da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e o produtor de palco Luciano Bonilha Leão respondem por mais de duas centenas de homicídios simples e mais de seis centenas de tentativas de homicídios simples com dolo eventual, quando se assume o risco de matar. Os quatro ainda respondem pela marca de 636 feridos, abrigados na figura jurídica da tentativa de homicídio
“É um momento bastante delicado. Imagina para as pessoas que perderam familiares, amigos, pais de famílias, pais, filhos. É um momento muito difícil onde se busca Justiça. É, ao mesmo tempo, um momento ambíguo, pois tenho a visão do que aconteceu, de que é óbvio que as pessoas julgadas têm sua parcela de culpa, mas que outras pessoas e entidades que tem um nível muito mais alto de culpa vão sair impunes. Eles têm que pagar pelo erro que tiveram, pois são os maiores responsáveis pela tragédia", comenta um dos sobreviventes do incêndio da boate, Valterson Wottrich da banda Pimenta e seus Comparsas, que abriu a noite da festa em Santa Maria.
O músico salienta que  o julgamento é necessário. "A gente espera por Justiça. Mas ao mesmo tempo ficamos tristes porque essas outras pessoas que também tem culpa não estão no banco dos réus. Mesmo com a condenação que todos esperamos, ela não irá trazer de volta as pessoas que acabaram perdendo a vida neste triste episódio", acrescenta. 
Ele destaca que a expectativa é de que a penalização exista, mas que ela será fora da curva, uma vez que a condenação em si, depois de sair a sentença, não irá trazer as pessoas de volta. 
Valterson sobreviveu, mas perdeu dois colegas de banda durante o incêndio, Marcos Rigoli e Robson Van Der Ham. Ambos foram sepultados no cemitério Jardim, na época. 
Ao todo, foram sete vítimas em Ijuí. Além dos músicos,  morreram Fernanda de Lima Malheiros, Allana Willers, Linccon Turcato Carabadgialle, Thiago Amaro Cechinatto e Helena Poletto Dambros durante o incêndio da boate. 
"Perdemos amigos, colegas de banda, pessoas de Ijuí que estavam lá na boate. Conhecia todas elas e tínhamos relação de amizade com a maioria deles, mas é algo que a gente não esquece nunca e no cotidiano a gente tenta superar. Na época, meu filho tinha 7 anos e pensei que nunca mais veria meu filho. São coisas que acabam acontecendo que nos dão todo tipo de força e motivação para seguirmos em frente", relata Valterson. "Tentamos seguir em frente, a vida segue e tem sido assim para todas as pessoas que tiveram parentes e amigos na boate. É uma coisa que supera, mas não tem um dia que não respire fundo e lembre de toda a situação", finaliza. 


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