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Economia

Cenário impacta no consumo das famílias

Postada 10/08/2020



Em meio à instabilidade econômica e incertezas sobre a retomada, o crescimento do número de pessoas com dívidas em atraso no Rio Grande do Sul é mais um ingrediente a preocupar o comércio gaúcho. O percentual de famílias com contas atrasadas em junho deste ano cresceu para 27,8%. No mesmo período de 2019, esse índice era de 22,1%, segundo dados da pesquisa divulgada pela Fecomércio-RS, nesta semana.
O levantamento também mostra piora no nível de persistência da situação de inadimplência. A fatia de famílias no grupo das que não terão condições de regularizar nenhuma parte de suas dívidas em atraso no prazo de 30 dias quase dobrou, crescendo de 8%, em junho do ano passado, para 14,2% em junho de 2020.
O percentual de endividamento – que também leva em conta as dívidas que estão sendo pagas — apresentou queda na comparação dos períodos.
Economista-chefe da Fecomércio-RS, Patrícia Palermo avalia que a crise vem reduzindo o percentual de famílias endividadas, porque o crédito está mais restrito, e as famílias também evitam se endividar neste período. "Por outro lado, aquelas pessoas que têm dificuldade de honrar suas dívidas acabam atrasando seus pagamentos", acrescenta.
Quando se fala em renda e consumo, é importante considerar a capacidade das famílias em fazer o pagamento de suas contas - fluxo coordenado com a renda. "Nesse momento, a renda reduziu significativamente e de maneira não planejada, sendo pegas de surpresa, e a inadimplência reduz. Hoje, a renda está colapsada e isso é um problema."
Patrícia pontua que o consumo corrente, ou seja, aquele diário/mensal, sempre estará à frente do pagamento de uma dívida. Aliado a isso, tanto comércio quanto bancos começam a restringir crédito, de olho nos riscos de mercado.
"Teremos uma melhoria da inadimplência, sempre que houver melhoria no mercado de trabalho ou na renda. Muitas pessoas dependem de renda transferida pelo governo federal, a exemplo do auxílio emergencial, mas, sem melhoria do quadro, que possibilite às pessoas trabalhar, melhoria na capacidade, prolongado o auxílio, e até mesmo uma estabilidade nos indicadores, e se mantendo a situação atual, a inadimplência aumenta e restringe a participação das pessoas no mercado de crédito."
Na inadimplência de junho deste ano, as famílias com renda abaixo dos 10 salários mínimos aparecem como as mais afetadas. Para o economista-chefe da FCDL-RS, Oscar Frank Junior, para reverter a situação e buscar impulso econômico, primeiro é preciso fazer um trabalho de autorreflexão, tanto por parte das famílias quanto dos empregadores, analisando suas receitas e despesas. "Isso é absolutamente fundamental. Muitos consumidores perceberam queda em seus salários e os empresários a mesma coisa, passaram a faturar muito menos. Então, é necessário promover uma readequação dessa nova fase das receitas e salários com as despesas, cortando o que não é essencial, supérfluo, renegociar dívidas com bancos, e esse é um momento bastante propício para isso", orienta.
Com o mercado de trabalho sendo duramente atingido pela crise, tanto formais quanto informais, um dos legados mais importantes que ficará é a transformação do consumidor, que começará, na opinião de Oscar, a priorizar o essencial, sendo muito mais criterioso. "Creio que essa seja uma grande lição para as empresas. Não somente a concorrência se acirra entre as empresas, mas o movimento dos próprios consumidores. Um desafio tremendo, mas que, naturalmente, gera novas oportunidades. Cabe ao empresário fazer uma leitura correta para aumentar sua parcela de participação no mercado."
Isso porque, sem fórmula mágica, é preciso também que os governos comecem a investir em  reformas estruturais - melhorar o ambiente de negócios, promover ajuste fiscal, melhoria na educação, privatizações, abrindo a economia para o comércio exterior. "São várias reformas que precisamos fazer, porque é isso que elevará nossa produtividade, nos colocando em outro patamar de crescimento no futuro."
Já o economista da Fiergs, André Nunes de Nunes, lembra que muitas empresas e indústrias optaram pela suspensão do contrato de trabalho com redução de salário e tudo isso acaba tendo impacto direto na vida do consumidor, e refletindo no setor industrial, que teve queda de 10,8% na atividade, no primeiro semestre. "Mas, também temos impactos que são indiretos, através de investimentos, que são adiados, e isso traz certa diminuição no potencial futuro de crescimento de nossa economia, impactos na atualização do parque produtivo, na tecnologia, e tudo isso, por sua vez, acaba tendo consequências que vão durar além de 2020 para nossa indústria."


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