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Produção de hortifruti é marca da colonização

Postada 24/07/2020



Comemora-se hoje, em todo o Brasil, o Dia do Colono e do Motorista. Para centenas de comunidades rurais do Sul do Brasil, o dia 25 de julho sempre se revestiu de significado cordial: é o Dia do Colono, estendendo ainda suas reverências ao motorista. Em outras palavras, ele remete às origens, aos pioneiros, num momento de celebração e de congraçamento por todos aqueles que, ao longo de décadas, plantaram as bases do desenvolvimento e do progresso regional. Mas passados quase dois séculos do início da colonização no Estado, o que ainda temos dos nossos antepassados? 
Mestre em História, Jaeme Luiz Callai afirma que hoje em dia muito pouco se tem do colono que veio da Europa para colonizar as terras do Rio Grande do Sul. “Hoje, temos pouca coisa do colono, pois ele foi se transformando, assumindo outras características, o que é bastante salutar e compreensivo. É normal que a vida se transforme ao longo do tempo. Aquele produtor que trabalhava direto na lavoura, na criação de alguns animais, produzindo na sua propriedade muito daquilo que se consumia, como carne, leite, feijão, arroz e mandioca, banha e pouca coisa buscava no mercado, praticamente deixou de existir. Este colono se transformou, o que é muito salutar”, disse o professor.
Mas, mesmo com essas mudanças, alguns traços dos primeiros colonos que aqui chegaram seguem presentes em nosso cotidiano. Para Callai, a produção da bacia leiteira, de hortifrutigranjeiros e de produtos coloniais, através das Casas do Produtor, instaladas em municípios da região, como é caso de Coronel Barros, ou das feiras de produtos, são resquícios materiais dos nossos antepassados.  
A Feira do Produtor de Ijuí é um exemplo desses lugares onde existem remanescentes dessa dinastia. O casal Romeu e Noemi Muller está há 38 anos fazendo feira e, desses, 28 anos somente na Aprofeira. Filhos de agricultores, eles herdaram dos pais uma pequena propriedade de oito hectares e meio,  na Linha Base Sul, e o gosto pela produção agrícola. “Nós começamos com hortas pequenas, mas elas foram aumentando. Instalamos estufas, e a produção foi crescendo junto com os filhos, que se formaram, mas preferiram seguir no interior”, disse Romeu, que é pai de Márcio, que hoje administra as 30 estufas de produção de morangos e tomates da família, e de Patrícia, que atua na produção de produtos coloniais.  
Já a educadora do Museu Antropológico Doutor Pestana, Belair Stefanello, afirma que um dos principais marcos da colonização e que está presente no cotidiano é a culinária.  "Na linha da panificação tem um sólido costume da cuca, do pão de milho, da bolacha, do pão caseiro. Todos estão bem presentes na vida moderna e são tão banais que a gente nem percebe que é um costume de nossos ancestrais”.
Nelson Cardoso, filho de agricultores, possui uma banca onde vende pães, há 31 anos,  na Aprofeira. De diferentes sabores, a panificação  foi uma alternativa de renda para ele se manter no interior. "Quero me aposentar na colônia", disse ele,  que já viu as duas filhas sairem de casa para vir trabalhar no ramo de padarias na cidade. "Na colônia só eu mesmo", acrescentou. 
Mas como tem aqueles que saem do meio rural, outros acabam se inserindo. A produtora de hortaliças Shana Ceretta nasceu e cresceu na cidade, mas acabou casando com um produtor rural e hoje atua junto com a família na venda de produtos na Aprofeira. Ela lembra que, mesmo com a novas tecnologias, que fizeram com que houvesse a melhora na produção e faz com que hortaliças antes produzidas apenas em algumas estações, possam ser produzidas o ano todo, o trabalho  é  diário. "Nós temos a tecnologia para nos ajudar, porque antigamente era bem mais trabalhoso, mas , mesmo assim, trabalhamos de domingo a domingo, não tem descanso, sempre cuidando dos nossos hortigranjeiros", disse ela,  que faz feira nas terças, quintas e sábados. 
Mas a presença do colono também está presente da cultura. Neste item, Callai diz que a presença da Sociedade dos Atiradores Tell, na Linha Oito; da Sociedade Santana, no Distrito de Santana; e da Sociedade Linha Três Oeste, no bairro Morada do Sol, são resquícios da presença do colono. "Claro que não são mais sociedades de colonos, mas são herdeiros, e foram criados por eles e que conseguem sobreviver e se manter como referência do que era a vida e do que era o trabalho desses pioneiros", finaliza o historiador.


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