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Estiagem e pesca podem levar à extinção de peixes

Postada 14/05/2020



Os  efeitos da severa estiagem que afeta o Rio Grande do Sul já são recordes. Dados de monitoramento do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) sobre as cotas dos rios no Estado superam níveis mínimos identificados em outros momentos de seca e, em alguns locais, chega ao menor nível há quase 80 anos. 
A situação crítica é observada sobretudo no rio Uruguai.  Ontem, mesmo com as chuvas dos últimos dias, segundo a CPRM de Porto Mauá, o rio estava 1,13 metros, no trecho que deveria ter cinco metros de profundidade.
 A crise hídrica, além de problemas econômicos, está causando uma catástrofe na fauna do rio. A diminuição da quantidade de água compromete a alimentação, a reprodução e tornam os peixes mais vulneráveis aos predadores (humanos e animais), apontam especialistas, o que levado a colônias de pescadores, a Patrulha Ambiental da Brigada Militar e pesquisadores pedirem suspensão da pesca na bacia do Uruguai para reduzir os impactos desse crime ambiental que está ocorrendo neste momento.  
A bióloga Juliana Felden afirma que a redução dos níveis de água se torna um desestímulo natural para a reprodução dos peixes.  "Não existe nenhum estimulo para que eles façam a migração reprodutiva neste período. E a seca traz outro fator que é a transparência da água, o que faz com que os predadores enxerguem com maior facilidade as formas iniciais dos peixes. Então ovos, larvas e alevinos acabam sendo predados mais facilmente".
Outra situação que pode ser observada é relativa à alimentação. "A seca acaba afetando muito, porque ocorre a redução da entrada de nutrientes que estão presentes na região litorânea, mas que não entram nos rios e afetam uma série de espécies que se alimentam principalmente de insetos e folhas entre outros itens alimentares."
A especialista ressalta que, neste momento, deveria haver maior controle e fiscalização, para que algumas espécies, como dourados e surubins, sejam protegidas, especialmente as espécies matrizes, já que, segundo a bióloga, alguns pescadores não estão tendo bom senso e seguem pescando nos rios. "Acredito que deveria haver uma ação de conscientização ambiental, maior fiscalização e determinar o que pode e o que não pode, porque assim como eles (pescadores) dependem do peixe para sobreviver, é necessário haver uma conscientização por parte deles, pois podem estar se prejudicando. No momento que eles retiram esses peixes de grande importância, eles podem estar gerando um desequilíbrio e levando a falta de peixes no futuro”, defende.
 No dia 23 de março, a Colônia de Pescadores Z18, que reúne mais de 700 associados em 92 municípios gaúchos, encaminhou à ministra da Agricultura, Tereza Cristina, ao secretário de Pesca, Jorge Seif Junior, e à bancada gaúcha na Câmara, pedido para que fosse proibida a pesca até o retorno dos rios à normalidade.  "Mas infelizmente não aceitaram. Nós recebemos a correspondência do Jorge Seif, em abril, em que ele explica que governo não conseguiria fazer a suspensão da pesca, porque todos os municípios que abrangem as bacias teriam que atestar situação de calamidade pública. Como nem todos os municípios pediram, o governo federal não teria como fazer o cancelamento da pesca, em virtude que é uma atividade primária que tem como finalidade o abastecimento alimentar do país ", explica o presidente da Colônia Z18, Itamir Lizot.
Na carta, segundo ele, o secretário salienta recomendações às determinações das autoridades sanitárias estaduais e municipais. "Isso significa que os Municípios podem fazer um decreto, onde a Vigilância Sanitária poderia interferir e proibir a pesca.  Eu sei que Municípios fizeram, como é caso de Garruchos, onde é proibida entrada de pescadores no rio Uruguai."
No ano passado, durante a crise das manchas de óleo no Nordeste, o secretário Seift, que é formado em Administração de Empresas e Marketing, disse durante uma live ao lado do presidente da República, Jair Bolsonaro, que o povo brasileiro poderia comer peixe do Nordeste à vontade, porque "o peixe é inteligente e foge das manchas de óleo". A fala do secretário foi endossada pelo presidente, que defende a revogação de leis que limitam a pesca no Brasil, o que  poderia  ampliar  o meio ambiente. 
"Nós já sugerimos que o Estado fizesse, mas eles recorreram. Pedimos aos deputados, e agora até ao Ibama, mas, até o momento, nada foi feito, pois no Brasil tudo demora", pontua Lizot, demonstrando descontentamento com os agentes públicos responsáveis pela política do meio ambiente.
Em contrapartida, do outro lado da fronteira, em reconhecimento da gravidade da situação,  a Província de Corrientes na Argentina  editou  no final de abril a Disposición Nº 120 da Dirección de Recursos Naturales, proibindo todas as atividades de pesca no seu âmbito, até que se normalize a vazão do rio, de forma a assegurar a fauna e recursos pesqueiros.
O presidente da Colônia, responsável pelas bacias do Alto Jacuí e Uruguai, se diz preocupado com este momento, já que a seca prejudicou a piracema - período de reprodução dos peixes - e pela pesca predatória. "Este ano foi pouca a piracema, pois o rio não cresceu. Então, temos essa dificuldade. Nós temos pescadores conscientes, mas tem aqueles inconsequentes que acabam fazendo a pesca predatória."


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