Notícia

Sociedade

Amor além dos olhos

Postada 14/05/2018



O toque, o cheiro, o som e a intuição são as armas secretas de Camila da Silva Blocker, 30 anos, para cuidar do seu pequeno Miguel, de 24 dias. Camila é deficiente visual. Aos nove anos, ela perdeu totalmente a visão. Antes disso, aproveitou para memorizar o mundo ao seu redor, suas cores, letras e pessoas.
Foram 11 cirurgias após ter catarata congênita, que a levou a escuridão. Mas não a escuridão completa. Vultos e clarões ainda são perceptíveis. Até 2007 fez cirurgias na esperança de que seu quadro fosse revertido. Até uma córnea artificial, vinda dos Estados Unidos, ela recebeu. Mas o nervo ótico estava dilacerado devido a tantas cirurgias. A córnea artificial foi rejeitada.
Ao longo dos anos, Camila levou uma vida normal. Se formou em Pedagogia pela Fagep, é presidente da Apadevi – Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Visuais de Ijuí, dá aulas de Informática e Braile no Imeab e é presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência. No ano passado, ela se deparou com mais uma notícia que mudaria ainda mais sua vida, a gravidez. Há um ano ela conheceu Jaderson e estão juntos até hoje. Ele mora em Rio Grande e está de mudança para Ijuí para ficar mais perto de Camila e do filho Miguel.
Camila conta que ao descobrir a gravidez levou um susto, mas acostumada, passou a curtir cada momento. “Depois que ele nasceu, de parto induzido, pois eu tinha diabetes gestacional, no quarto dia eu tive uma crise de medo. Tive medo de não conseguir cuidar dele. Por mais que minha mãe ajude, a responsabilidade é minha. Me deu medo de que a minha deficiência me impedisse de cuidar dele. Mas eu conheço algumas pessoas onde o casal é cego e mesmo assim dão conta. Então pensei: porque eu não conseguiria?”.
Em seu primeiro Dia das Mães ela diz que quer um futuro bom para o filho. “Quero que ele dê valor à vida, às pessoas, que seja uma pessoa do bem, que saiba diferenciar o que é certo e errado”.
Sobre preconceito, ela diz que não se importa. “Uma vez uma pessoa me disse que era uma pena eu não poder ver o rostinho do meu bebê. Eu disse que ver não é tudo. É o sentir, tocar. Mentalmente eu sei como ele é. O fato de não ver não interfere no amor que tenho por ele”.
Cada dia é uma novidade na vida da mamãe Camila. De licença maternidade, ela passa as horas com o pequeno no colo, dando muito carinho e divide os cuidados com a mãe Maria Blocker, com quem mora. É a avó que conta todos os detalhes de como Miguel é. “O rostinho, as cores dos olhos, dos cabelos. Tudo ela me conta todos os dias”. Camila conta que fez todo o enxoval sozinha, tocando nos tecidos, com a orientação da mãe quanto às cores.
Hoje Miguel acorda até quatro vezes por noite e mama muito. “É um desafio e sei que vou dar conta. Não é uma deficiência visual que vai me impedir de cuidar e dar muito amor a ele”, conta Camila, revelando que não se importa se não voltar a enxergar.
“Sinceramente não me importo se não voltar a enxergar. Teria que aprender tudo de novo. Tem gente que não concorda comigo, mas digo que não me faz falta, pois mesmo com a deficiência, realizei todos os meus sonhos, inclusive de ser mãe. A deficiência não me atrapalhou nos projetos que eu tinha e fiz”, finaliza.

 


Edição Impressa


Ver Todas as Edições
Trabalhe no Grupo JM Espaço do Leitor - Assine - Anuncie -
Albino Brendler, 122, Centro, Ijuí-RS
(55) 3331-0300
[email protected] Desenvolvido por