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Coluna Nilton Kasctin dos Santos

Publicada 06/11/2017

Bartimeu

Numa cidadezinha da Palestina chamada Jericó, um mendigo pede esmolas. Tornara-se pedinte por ser deficiente visual. Nessa época (do Império Romano), um cego era considerado coisa ou animal. Não tinha nenhum direito.
Bartimeu não possui documento, casa ou profissão. Para comer, só algum resto. Sua roupa são andrajos e uma capa imunda. Nem nome possui, pois Bartimeu, em aramaico, quer dizer “filho de Timeu”. Sem qualquer perspectiva de acesso a um meio de vida digno, o jeito é pedir esmolas.
Curioso que o nome do pai do mendigo é Timeu, que em aramaico significa “muito estimado”. Como pode então um cidadão respeitado (estimado) ter um filho mendigo? Sobre isso li que Timeu pode ter sido perseguido e morto por discordar da invasão romana no território palestino. O exército romano pode ter-lhe confiscado os bens e matado também os demais membros da família, sobrando apenas esse “filho de Timeu”. Há quem sustente ainda que Bartimeu tivera os olhos furados pelos soldados, que o colocaram na praça para servir de exemplo a quem contestasse o governo romano.
Mas o fato é que agora o cego está na calçada rogando por uma moeda a cada ruído que possa indicar a aproximação de uma pessoa.
De repente um alvoroço. Uma multidão eufórica se aproxima. Bartimeu descobre que aquele povo todo acompanha Jesus Cristo, que passa por ali pouco antes de se entregar ao Calvário. É sua única chance, conclui. E grita:
- Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! E todas as tentativas de dissuadi-lo da ação são rechaçadas com gritos ainda mais altos. Jesus então para.
- Que queres que te faça? – indaga-lhe o Mestre.
- Que eu possa enxergar – replica convicto o cego.
E basta a um mendigo apenas passar a ver? E depois?
Refletindo sobre o episódio, confesso que no começo achei muito pouco o que pede Bartimeu. Para um mendigo que só ganha esmolas por causa da cegueira, parece até pior voltar a enxergar, pois seu “ganha-pão” estaria prejudicado. Para onde vai e o que fará sem casa, profissão, família, documento? E sem as moedinhas das esmolas?
Um detalhe fantástico: quando percebe que o Mestre se coloca ao seu dispor, Bartimeu joga fora a capa. Decidido. E ninguém mais pode enxergá-lo como mendigo. Com a capa, vai-se a identidade de miserável, cego, pobre, doente e injustiçado. Agora Bartimeu é um seguidor de Cristo.
Não sabe se terá comida no dia seguinte. Mas, na sua alma, mendigar faz parte do passado. Agora ele pode ver. É isso que importa.
Quantas pessoas querem melhorar de vida, mas não jogam fora a capa que as identifica como derrotadas. Conheço pessoas que desejam prosperidade financeira, mas se recusam a fazer uma faculdade, um curso técnico, ou mesmo a trabalhar em qualquer atividade. Outras pedem ao patrão que as demita falsamente apenas para receber o seguro-desemprego. Outras não querem trabalhar com carteira assinada para não perder benefícios de programas governamentais. E não é raro encontrar pessoas que buscam um milagre de cura, mas primeiro querem aposentar-se por invalidez.
Desejam vencer na vida. Mas sem abandonar as moedas da mendicância. Sem jogar fora a capa de perdedor.
Bartimeu poderia ter ponderado com o Mestre sobre o que vestiria, o que comeria e onde iria morar depois do milagre. Poderia ter-se queixado contando aos prantos seu passado cruel. Mas prefere lançar fora a capa da vitimização. Basta-lhe poder enxergar; o resto buscará depois.

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