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Coluna Nilton Kasctin dos Santos

Publicada 23/10/2017

Há 30 anos em Ijuí

Gostaria de parabenizar Ijuí por mais um aniversário. Mas como fazê-lo, se o que sinto é apenas uma tristeza por ver minha Cidade querida regredindo a passos largos no que se refere a qualidade de vida? O progresso de que tanto falam autoridades locais diz respeito apenas ao aspecto econômico. Que na verdade se mostra cada vez mais acanhado.
A tal “pujança econômica”, alardeada por deputados aproveitadores que discursam eloquentes na Expoijuí é experimentada apenas pelo setor do agronegócio, que despeja milhões de litros de agrotóxicos perigosos no ar, na terra e na água, para produzir milho e soja transgênicos de exportação.
Cheguei em Ijuí em 1986. Aqui fui o jovem mais feliz do mundo, fazendo duas faculdades ao mesmo tempo. Letras e Direito. Na Unijuí aprendi a ler e entender o mundo com grandes mestres como Argemiro Brum, Belato, Jaime Calai, Noili Demaman, José Teodoro Correa, Claudete Gomes, Sérgio Pires, Egídio Dalforno, Cláudia Caimi, Darcísio Correa e tantos outros.
Lembro que atravessava a cidade a pé para fazer aulas de saxofone com Os Futuristas ao meio dia. Da Linha 3 à BR 285 ia só pela sombra das árvores da Rua do Comércio e Coronel Dico. Por onde andam aquelas árvores tão belas e frondosas? Quem as cortou? As mesmas pessoas que hoje parabenizam Ijuí pelo progresso.
Há 30 anos, a comida do supermercado de Ijuí era saudável. Não havia alimentos feitos de produtos transgênicos. A maioria dos alimentos eram naturais produzidos por agricultores de Ijuí e região. Os alimentos processados eram feitos por indústrias de Ijuí, que hoje agonizam ou já morreram para dar lugar exclusivo ao mercado globalizado de alimentos envenenados.
É verdade que a produção de soja e milho transgênicos cultivados a peso de insumos tóxicos cresceu. Assim como a produção de leite de vacas que se alimentam apenas de silagem e ração de transgênicos repleta de químicos nocivos à saúde de qualquer organismo vivo.
Há 30 anos, o lixo de Ijuí não era mandado para a pequena cidade de Giruá. Mal ou bem, Ijuí resolvia seu problema de resíduos sólidos, como deve mesmo fazer toda comunidade que tenha um mínimo de responsabilidade com a vida.
Nesse tempo também não havia em Ijuí uma farmácia por esquina, vendendo como água, a preço de ouro, os milhares de tipos de medicamentos fabricados pelas mesmas multinacionais que fabricam os agrotóxicos despejados por aqui em quantidade assustadora.
Há 30 anos, nem se cogitava da necessidade de um CACON em Ijuí para tratar seus milhares de pacientes de câncer. Muito menos que no CACON haveria uma fila interminável de pacientes esperando ansiosos por uma cirurgia de câncer.
Há 30 anos, não se notava tantos problemas habitacionais em Ijuí. Hoje é possível afirmar que muitos locais da periferia se acham em processo de favelização.
Há 30 anos, não habitávamos entre tantas grades de ferro com medo do nosso irmão. As casas dos ijuienses ainda eram um lugar de segurança, liberdade e paz, e não um esconderijo onde as pessoas se refugiam apreensivas ao menor barulho.
Pesquisas revelam que Ijuí progrediu nesses últimos 30 anos. Só que a ideia de progresso, para a estatística, está relacionada ao desenvolvimento tecnológico e científico que possibilita o acesso de poucos a bens materiais. Unicamente. Mas naquilo que realmente interessa, que é a conquista de qualidade de vida, incluindo justa distribuição de renda, Ijuí regrediu.

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