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Coluna Nilton Kasctin dos Santos

Publicada 05/03/2018

Ressentimento

Tudo corria bem na família e nos negócios de um próspero fazendeiro que tinha apenas dois filhos homens. Um dia, sem mais, sem menos, o mais novo se aproxima do pai e diz de supetão:
- Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence. Vou partir para longe a fim de viver por conta própria.
Inútil o esforço do pai para dissuadir o jovem daquela ideia absurda. O jeito foi mesmo entregar ao filho o dinheiro correspondente à metade da fazenda e assistir à partida com tristeza.
Algum tempo depois, tendo imprudentemente desperdiçado todo o dinheiro, o jovem passa a trabalhar como cuidador de porcos para um estranho. Seu salário é tão baixo, que sequer dá para a comida. Não mais suportando a fome, a saudade de casa e a solidão, decide voltar.
O pai, que jamais se cansara de esperar a volta do filho, ao avistá-lo retornando, corre ao seu encontro e, em lágrimas, abraça e beija o filho, que lhe diz:
- Pai, sei que errei. Já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas, por favor, me aceite pelo menos na condição  de empregado.
Depois das efusivas boas vindas ao filho, o pai se volta para os empregados e ordena:
- Preparem depressa uma grande festa, matem o bezerro cevado para que comamos e alegremo-nos, pois este meu filho estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi achado.
Chega do campo o filho mais velho, que pergunta surpreso a um dos empregados, ao ouvir a música e as danças no interior da casa:
- O que está acontecendo lá dentro? Que festa é essa?
- É por causa que voltou teu irmão. Teu pai está tão feliz, que mandou matar o bezerro cevado e preparar para ele uma festa.
O irmão mais velho fica tão indignado, que decididamente se recusa a entrar. Sai então o pai para tentar convencê-lo a participar do banquete. Mas é constrangido a ouvir da boca do filho mais velho, na presença dos empregados e curiosos que rapidamente se juntam para tomar pé do alvoroço:
- Eis que te sirvo fielmente há tantos anos, sem nunca transgredir as tuas regras, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. Vindo porém este teu filho, que desperdiçou a tua fazenda, mandas preparar-lhe uma festa.
Tomado de tristeza pela inesperada reação do filho mais velho, o pai insiste:
- Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas. O teu irmão, ao contrário, estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado, por isso era justo alegrarmo-nos.
Ressentimento. Essa é palavra que traduz da maneira mais completa o comportamento do irmão do filho pródigo. Não precisa lançar mão do dicionário ou da Filologia (ciência que estuda a origem e o sentido das palavras e das línguas) para compreender que ressentimento é o contrário de alegria, de prazer, de contentamento, de perdão, de união, de vida. Ou seja, quando surge o ressentimento, é porque todas essas coisas boas já desapareceram.
Mas o ressentimento não vem sozinho; ele está sempre acompanhado da dor, da amargura, do ódio, da inveja, da solidão, da tristeza, da inimizade, das doenças e da morte.
Todos somos propensos a ficar ressentidos com alguém em algum momento da vida. Pode ser no trabalho, quando percebemos que nosso colega mais novo é promovido antes que nós. Na família, quando o irmão mais novo prospera financeiramente mais que nós ou recebe mais atenção dos pais. Ou em qualquer outra situação em que somos injustiçados.
E sabe quem é o maior prejudicado quando estamos ressentidos com alguém? Nós mesmos. Porque o ressentimento é como uma brasa viva que seguramos na mão; só queima a nós mesmos. 

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